‘Escolhi não continuar em silêncio’: o relato que levou mais de 10 vítimas a denunciarem pastor e psicólogo por crimes sexuais em RO

Mais de 10 vítimas denunciam pastor e psicólogo por crimes sexuais em RO A iniciativa de uma mulher deu início a uma sequência de relatos que denunciam um padrã...

‘Escolhi não continuar em silêncio’: o relato que levou mais de 10 vítimas a denunciarem pastor e psicólogo por crimes sexuais em RO
‘Escolhi não continuar em silêncio’: o relato que levou mais de 10 vítimas a denunciarem pastor e psicólogo por crimes sexuais em RO (Foto: Reprodução)


Mais de 10 vítimas denunciam pastor e psicólogo por crimes sexuais em RO A iniciativa de uma mulher deu início a uma sequência de relatos que denunciam um padrão de 20 anos de crimes sexuais atribuídos ao pastor e psicólogo Aluizio Vidal Flor, de 58 anos, em Porto Velho. Em setembro, o líder religioso foi preso e denunciado à Justiça por estupro e violência sexual. Em dois meses, 12 mulheres procuraram o Ministério Público de Rondônia (MP-RO) para denunciá-lo. "Dói lembrar do consultório, do julgamento, das humilhações, da solidão e do medo de não acreditarem em mim. Mas hoje eu sei que a vergonha nunca deveria ter sido minha. Quando compreendi que poderia haver outras mulheres, escolhi não continuar em silêncio". A declaração é de Mirian Rios. Ela contou ao g1 que procurou Aluizio em busca de ajuda para salvar o casamento. Confiava nele tanto pela atuação como psicólogo quanto pelo papel de pastor e conselheiro espiritual. No entanto, em uma das sessões de terapia, Mirian afirma que o pastor ultrapassou os limites profissionais e pessoais. O relato dela foi colhido no Núcleo de Atendimento às Vítimas (Navit) do MP-RO e encorajou outras mulheres a denunciarem o caso. Porém, antes de recorrer à Justiça, Mirian tentou resolver o assunto internamente na igreja. "Mal sabia que, naquele momento, começava a batalha mais injusta da minha vida", relembra. Pastor Aluizio Vidal Reprodução/redes sociais O julgamento da igreja Durante um julgamento interno da igreja formado por um grupo de 13 homens, presbíteros e representantes da Igreja Presbiteriana do Brasil, as denúncia de Mirian foram descartadas por falta de provas. "Foi um dos piores dias da minha vida. Em vez de o comportamento denunciado ser colocado no centro do julgamento, fui eu quem passou a ser julgada. No fim, a verdade aceita foi limitada à versão que o próprio acusado escolheu contar. Saí daquele tribunal religioso sentindo que minha dignidade havia sido retirada de mim", lamenta. No fim do julgamento, o pastor foi punido por "falas impróprias", após admitir que comentou sobre o corpo da vítima e que "qualquer homem gostaria de vê-la, inclusive ele, embora já fosse mais velho". Outras condutas denunciadas, como contatos físicos e tentativa de beijo, não foram consideradas comprovadas. Mirian relata que, após a denúncia, passou a ser perseguida, difamada e excluída dentro da igreja. "Para explicar minha denúncia, passaram a dizer que eu era bipolar, instável, depressiva e mal-amada. Disseram que eu havia me apaixonado por ele, que tinha confundido as coisas. Chegaram ao extremo de espalhar que eu era garota de programa. De vítima, fui transformada em prostituta e vilã", completa. Foi então que a vítima decidiu procurar o Navit. Após a decisão interna da igreja, Mirian procurou o Ministério Público, que iniciou a apuração criminal dos fatos. Depois dela, outras sete denunciantes surgiram e foi iniciado o primeiro inquérito que levou à prisão do réu. Posteriormente, outras quatro mulheres procuraram a polícia e uma segunda investigação foi aberta. O g1 procurou os responsáveis pela igreja, que optaram por não se pronunciar sobre o caso. O eco de duas décadas de silêncio O sentimento de ser descredibilizada e o medo de denunciar por achar que ninguém iria acreditar é relatado por outras vítimas. Os relatos possuem, em sua grande maioria, os mesmos cenários: o consultório psicológico e os bastidores da igreja. Segundo a denúncia feita pelo MP-RO, Aluízio valia-se da sua superioridade como psicólogo e pastor e se aproveitava das mulheres que chegavam à clínica fragilizadas por perdas gestacionais, traumas familiares ou crises conjugais. "Confiava nele como psicólogo e como pastor. Ele conhecia minhas dores, minhas fragilidades e aspectos muito íntimos da minha vida. Eu o via como pai, amigo, mentor, pastor, psicólogo e conselheiro. Jamais poderia imaginar que aquela confiança seria usada contra mim", desabafa Mirian. De acordo com o documento, o psicólogo usava exercícios de "hipnose" ou "relaxamento" durante as sessões de terapia para cometer os crimes. "Eu era paciente dele no consultório há mais de dez anos, entre idas e vindas. Na última sessão do ano passado ele disse que sempre tinha sido apaixonado por mim e que desde que fiz bariátrica ele tinha o sonho de me ver pelada e tentou erguer minha blusa. [...] Ficava de frente e escorado em mim e me olhando tentado me hipnotizar", denuncia Kamila Fernanda. Aluízio foi preso preventivamente em setembro de 2026 e permanece detido. Semanas depois, o Ministério Público de Rondônia enviou à Justiça uma denúncia com base no primeiro inquérito concluído pela Polícia Civil, com oito vítimas. A denúncia abrange crimes cometidos contra quatro mulheres: duas por estupro e as outras por violação sexual. Em relação às outras quatro, o órgão pediu o arquivamento parcial baseado em dois pontos: alguns estavam prescritos, porque ocorreram há mais de 20 anos, e outros não podiam ser punidos porque na época em que aconteceram ainda não existia a tipificação do crime de importunação sexual que foi denunciado. O caso segue na Justiça sob sigilo. Após a prisão, a defesa de Aluizio Vidal afirmou ao g1 que acreditava que as investigações iriam comprovar a inocência do pastor. Quando ele foi denunciado à Justiça, a reportagem voltou a procurar o advogado, que optou por não se pronunciar sobre o caso. O que é o Navit? O espaço, que fica na sede no Ministério Público em Porto Velho, é preparado para lidar com situações de vulnerabilidade e os responsáveis são comprometidos em conciliar a apuração dos fatos com o cuidado necessário à privacidade das vítimas. "O Navit atua como porta de entrada da rede de proteção às vítimas, oferecendo um ambiente seguro, acolhedor e especializado para escuta, orientação e encaminhamento. Esse trabalho possibilita que mulheres em situação de violência relatem experiências extremamente sensíveis com segurança e confiança", reforça o MP-RO. Denúncias podem ser feitas através dos seguintes contatos: 📲 WhatsApp: (69) 99906-6411 📞 Ligação: (69) 98408-9931 As vítimas também podem procurar a Polícia Civil de Rondônia e a Polícia Militar: 197 – Polícia Civil: denúncias, inclusive anônimas; 180 – Central de Atendimento à Mulher: orientações e encaminhamentos, 24 horas por dia; 190 – Polícia Militar: em situações de emergência.