'Humanizadores' de textos prometem driblar detectores de IA; professores dizem que tecnologia não faz milagres

'HUMANIZADOR' DE TEXTOS PROMETE ELIMINAR TRAÇOS DE IA NAS REDAÇÕES Bastam alguns comandos simples para que um texto acadêmico ou uma redação escolar, que ...

'Humanizadores' de textos prometem driblar detectores de IA; professores dizem que tecnologia não faz milagres
'Humanizadores' de textos prometem driblar detectores de IA; professores dizem que tecnologia não faz milagres (Foto: Reprodução)

'HUMANIZADOR' DE TEXTOS PROMETE ELIMINAR TRAÇOS DE IA NAS REDAÇÕES Bastam alguns comandos simples para que um texto acadêmico ou uma redação escolar, que antes demorariam horas para ficarem prontos, sejam redigidos em poucos segundos pela inteligência artificial (IA). Mas há um grande obstáculo para os alunos que tentam fugir do exercício da escrita: técnicas capazes de detectar quando um texto não é autoral. ➡️O professor universitário Jason Gibson, por exemplo, em uma universidade americana, criou uma "armadilha" para identificar quem havia feito uma avaliação inteira usando IA. O resultado foram 32 de 35 alunos reprovados. É nesse contexto que surge uma nova estratégia: sites que utilizam inteligência artificial para "humanizar" textos feitos pelos robôs. Em vídeos viralizados nas redes sociais, tutoriais dessas ferramentas prometem que um texto que antes era identificado como sendo 100% produzido por IA passe despercebido até pelos softwares que detectam quando esse tipo de tecnologia foi usada. A técnica, tanto para escrever o texto com inteligência artificial como para tornar a produção mais natural ainda utilizando IA, é amplamente criticada pelos professores. E mais: é bem menos efetiva do que parece. (entenda mais abaixo) Ademar Celedônio, diretor de ensino e inovações da Arco Educação, alerta que o prejuízo não está simplesmente na presença da tecnologia, mas na substituição do processo de escrita. "Quando a inteligência artificial formula teses, escolhe os argumentos e constrói a conclusão, o estudante pode entregar uma redação, mas não necessariamente desenvolve a capacidade de escrevê-la", afirma. Além disso, por mais que a "humanização" possa alterar o resultado da detecção, ela não altera a estrutura nem o raciocínio original e, no limite, não faz com que o estudante desenvolva a capacidade de formular um texto no mesmo formato no futuro. 'Humanizador' não faz milagre Claude costuma ser mais usado por empresas e ChatGPT, por usuários privados Matteo Della Torre/NurPhoto/picture alliance via DW Para entender o efeito que o humanizador pode produzir em um texto, o g1 testou algumas ferramentas disponíveis para tirar traços característicos de inteligência artificial, a partir do seguinte passo a passo: ➡️Pedimos ao ChatGPT para que escrevesse uma redação no modelo exigido pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para o tema de 2025, "Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira". ➡️O texto produzido foi enviado para um detector de IA que identificou que o material era integralmente redigido com uso de tecnologia. ➡️A redação então foi enviada para dois diferentes "humanizadores" de texto, que também modificam o conteúdo com uso de inteligência artificial. ➡️O novo texto foi, então, encaminhado novamente para o mesmo detector de IA a fim de entender o quanto os traços foram suavizados. O resultado foi que o humanizador reduziu para uma porcentagem de cerca de 80% as características de IA, mas não as eliminou totalmente nem transformou o um texto em uma versão similar a algo redigido por uma pessoa, como afirmam muitos dos vídeos. "A redução percentual indicada não corresponde ao desaparecimento das características do texto original. Entretanto, a opinião argumentativa permaneceu praticamente intacta, assim como a sequência das ideias, os exemplos e a proposta de intervenção", afirma Celedônio, após analisar os textos produzidos. Maysa Barreto, assistente pedagógica da plataforma Redação Nota 1000, explica que ainda que sejam eliminados traços característicos da IA – como repetição de palavras, excesso de formalidade ou de travessões – os sinais de que a redação é artificial ainda permanecem. 👉Entre esses sinais, os professores destacam: Uso frequente de períodos curtos, o que dificulta o desenvolvimento das informações. Utilização de generalizações e afirmações baseadas no senso comum. Emprego de expressões características da oralidade, como se a IA entendesse humanização da escrita necessariamente com um sinônimo para um texto muito informal. Falta de exemplos ou justificativas relacionadas ao cotidiano para ilustrar as afirmações. Padronização no tamanho dos parágrafos. Todos esses pontos fazem com que o ritmo e as construções das frases se tornem repetitivos e padronizados, perdendo naturalidade. Além disso, a superficialidade na argumentação permanece. "A escrita é construção, um processo cognitivo que traz características individuais de cada processamento, de cada vivência, de cada conhecimento adquirido previamente ou até mesmo do atendimento a uma expectativa de leitura futura, o que influencia na autoria, na formulação das frases, no encadeamento das ideias, na seleção de palavras", argumenta a professora. Por que o uso de IA em redações é prejudicial? Mais do que ser difícil de disfarçar em um texto, o uso de IA nas redações é prejudicial para o processo de aprendizagem. Fernanda Becker, analista pedagógica da plataforma Redação Nota 1000, detalha que essa prática atropela as etapas de construção do conhecimento e inibe a criatividade e o pensamento crítico dos alunos. "A elaboração de uma redação não se resume ao resultado final, mas a um percurso de aprendizagem que envolve a aquisição de repertórios, a formulação de argumentos próprios e o encontro com o próprio estilo de escrita, aspectos que exigem tempo para que se desenvolvam", comenta. Outro ponto destacado pelos professores é que os alunos não poderão utilizar a ferramenta em uma situação de prova, por exemplo. E, uma vez que o desenvolvimento da escrita pode ser prejudicado, escrever redações sob pressão pode se tornar ainda mais complicado. Sérgio Paganim, professor e coordenador de redação do Curso Anglo, acrescenta que a construção de um texto é um exercício complexo, que exige repertório, elaboração de argumentos e compreensão de uma estrutura definida e da linguagem. "Tudo isso precisa ser treinado pelo próprio aluno e não feito por uma máquina", opina. Eles ainda alertam que a inteligência artificial tende a não utilizar repertórios específicos e, quando utiliza, pode inventar fatos, dados ou leis que não existem, diminuindo a credibilidade do texto. "A prática autoral e constante de redação é o único meio de obter plena autonomia na construção de um texto", recomenda Fernanda. Quando a IA pode ajudar? Mesmo que o uso da IA para fazer ou humanizar textos seja desencorajado pelos professores, a tecnologia pode ser uma aliada nos estudos. Ela pode ser utilizada para analisar textos que receberam nota mil, por exemplo, indicando os pontos positivos que levaram à pontuação máxima. O aluno também pode carregar essas redações de alta conceituação como base para que a IA possa ajudar na análise de um texto autoral, apontando aspectos em que o texto do estudante pode melhorar. "Da mesma forma, no caso de vestibulares, a IA pode sintetizar os critérios de avaliação de cada prova de redação, de modo a facilitar a compreensão das competências exigidas por cada uma das bancas", acrescenta Fernanda.  É possível ainda pedir sugestões de repertórios socioculturais, como filmes, livros e músicas, de acordo com um determinado tema ou área. Os professores reforçam que a ideia é que a tecnologia se torne uma ferramenta que ajude a questionar, oferecer contrapontos e revisar a redação, mas sem fazer o trabalho de desenvolvimento dessa competência, que deve ser do aluno. "A IA pode ser uma boa tutora, desde que ela não se transforme em autora", adverte Celedônio.