'Sou meu próprio patrão, mas nunca sei quanto vou ganhar': o retrato de quem vive das entregas por aplicativo

'Delivery com Maju': apresentadora recebe entregadores para jantar e ouvir suas histórias No fim de um domingo, basta alguns toques no celular para pedir uma p...

'Sou meu próprio patrão, mas nunca sei quanto vou ganhar': o retrato de quem vive das entregas por aplicativo
'Sou meu próprio patrão, mas nunca sei quanto vou ganhar': o retrato de quem vive das entregas por aplicativo (Foto: Reprodução)

'Delivery com Maju': apresentadora recebe entregadores para jantar e ouvir suas histórias No fim de um domingo, basta alguns toques no celular para pedir uma pizza, um hambúrguer ou comida japonesa. Pouco tempo depois, um entregador chega à porta. Na nova série "Delivery com Maju", exibida pelo Fantástico, esses trabalhadores deixam as motos de lado por alguns minutos para sentar à mesa com Maju Coutinho e contar as histórias por trás das mochilas de entrega. Veja o primeiro episódio no vídeo acima. O primeiro personagem é Jobinho, que resume um dos maiores dilemas da profissão. Embora valorize a liberdade de organizar a própria rotina, convive com uma renda imprevisível. "Tem a sensação de você ser seu próprio patrão. A única coisa que a gente não pode escolher é o preço, porque já vem do aplicativo. Você escolhe a hora que vai trabalhar, como vai se organizar, o tipo de férias que vai ter. É louco porque você não sabe quanto vai ganhar no mês. Sabe quanto tem que pagar". Segundo o IBGE, o Brasil tinha 485 mil entregadores por aplicativo em 2024, quase 10% a mais do que na pesquisa realizada dois anos antes. O crescimento da categoria trouxe também novos desafios para quem depende das corridas para pagar as contas. Jobinho calcula que costuma faturar entre R$ 250 e R$ 300 por dia. Mas o valor varia conforme a demanda, o clima, o trânsito e até o tempo de espera nos restaurantes. Até pouco tempo, ele conseguia tirar a terça-feira para descansar. Hoje, trabalha praticamente todos os dias. "Agora estou de segunda a segunda". Da pandemia para a moto A vida sobre duas rodas começou durante a pandemia. Antes, Jobinho trabalhava como motorista de aplicativo. Com as restrições e a queda nas corridas, precisou buscar outra fonte de renda. No início, acompanhava um amigo nas entregas. "Eu ia na garupa com a mochila. Era auxiliar de motoboy". Depois vieram a bicicleta, uma mobilete, uma moto alugada e, por fim, a motocicleta própria, apelidada por ele de "venenosa". Antes disso, chegou a trabalhar com carteira assinada em duas empresas, mas decidiu não voltar ao mercado formal. "Cansei de empresa. Me irritava muito como funcionam as coisas. Para mim, todo mundo tem que ser tratado da mesma forma". Solidariedade sobre duas rodas Apesar da concorrência pelas corridas, Jobinho diz que existe um forte espírito de união entre os entregadores. "Se algum motoboy sofre um acidente, você vê como a gente reage. A gente atende, para, liga. Eu mesmo já fiz muito isso". A solidariedade, no entanto, tem um custo. "Perde dinheiro. Às vezes eu tenho que maneirar um pouco, porque paro muito para ajudar todo mundo". Essa rede de apoio também existe no ambiente virtual. Grupos com centenas ou até milhares de entregadores servem para avisar sobre promoções dos aplicativos, mudanças no trânsito, chuva e até pedidos de socorro. A realidade que o cliente não vê Por trás de cada entrega, há dificuldades que raramente aparecem para quem faz o pedido. Além da renda instável, Jobinho relata que muitos estabelecimentos impedem os entregadores de usar o banheiro ou até de pegar um copo d'água. "Tem vez que a gente não consegue parar para usar o banheiro. Você pede uma água e a pessoa fala que é só para cliente". Para ele, a falta de estrutura afeta diretamente a saúde dos trabalhadores. "O motoboy precisa de um auxílio, precisa de uma estrutura. Quando ele se machuca, ele não pode trabalhar. O provedor da casa vira um custo. Isso está deixando os motoboys doentes". Foi para tentar amenizar essa realidade que um grupo de entregadores criou uma base mantida com doações da própria categoria. O espaço oferece café, água, marmitas, micro-ondas, banheiro, tomadas para carregar celulares e bicicletas elétricas, além de um sofá para descanso. Em alguns casos, o local também serve de abrigo. "Tem motoboy que não tem lugar para morar em São Paulo. Trabalha de madrugada e dorme na base". Orgulho da profissão Apesar das dificuldades, Jobinho não pensa em abandonar o delivery. Ao ser perguntado se pretende fazer faculdade ou seguir outro caminho profissional, responde sem hesitar. "Não quero isso para mim. Até quando vou ficar nisso? Só Deus sabe. Mas eu não penso em fazer outra coisa". No fim da conversa com Maju Coutinho, vem uma pergunta simples: se pudesse fazer uma entrega especial, para quem seria? A resposta também é simples. "Uma pizza... para o meu pai e para a minha mãe". 'Delivery com Maju': apresentadora recebe entregadores para jantar e ouvir suas histórias Reprodução/TV Globo GloboPop: clique para ver os vídeos do palco do Fantástico Ouça os podcasts do Fantástico ISSO É FANTÁSTICO O podcast Isso É Fantástico está disponível no g1 e nos principais aplicativos de podcasts, trazendo grandes reportagens, investigações e histórias fascinantes em podcast com o selo de jornalismo do Fantástico: profundidade, contexto e informação. Siga, curta ou assine o Isso É Fantástico no seu tocador de podcasts favorito. Todo domingo tem um episódio novo.